4. BRASIL 8.4.13

1. TEMER COMBATE OS INCNDIOS
2. A VIDRAA COMUNISTA
3. "O PT PRECISA PROVAR QUE  POSSVEL FAZER POLTICA COM SERIEDADE"
4. "TEMOS UM PAS  DERIVA EM BUSCA DE UM GESTOR"
5. A OFENSIVA ACIO

1. TEMER COMBATE OS INCNDIOS
Vice-presidente Michel Temer atua como bombeiro e consegue aplacar a crise entre o Legislativo e o Judicirio. Escalado por Dilma, o peemedebista conquista espao de destaque nas costuras polticas do governo
Izabelle Torres

Nas ltimas semanas, uma disputa de foras entre Legislativo e Judicirio desenhou um cenrio preocupante para as relaes entre os Poderes. Os embates se agravavam a cada dia, com congressistas tentando reduzir poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e estes usando o poder de juzes para emperrar a votao de um projeto que inibe a criao de novos partidos. A crise ameaava ganhar contornos sombrios at que o vice-presidente da Repblica, Michel Temer (PMDB-SP), entrou em cena, a pedido da presidenta Dilma Rousseff, com a misso de impedir que uma pequena labareda se transformasse em incndio.

O MEDIADOR - Crise enfrentada com dilogo e argumentos jurdicos, no com embate

Em um nico dia, Temer falou quatro vezes com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e duas com o presidente da Cmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Pediu cautela e esprito conciliador nas conversas com o ministro Gilmar Mendes, que havia concedido a liminar para paralisar a tramitao do projeto sobre novos partidos. Disse aos colegas que era preciso apresentar argumentos jurdicos para sustentar seus pontos de vista e dar demonstraes de que no compactuam com atitudes e gestos que poderiam ser considerados extremados.

A interferncia no poderia ter sido mais oportuna. Irritado com o ministro Gilmar Mendes e pressionado pelos parlamentares da base governista a reagir, Henrique Eduardo Alves disparou crticas contra o STF por trs dias. No domingo 28, ao participar do 12 Frum de Comandatuba, na Bahia, ele disse que uma liminar paralisando a tramitao de um projeto do Legislativo era inaceitvel e impensvel. Alves manteve discurso em alta temperatura por algumas horas e criticou a interferncia continuada do STF nas questes do Legislativo. Michel Temer procurou o presidente da Cmara algumas horas depois. Disse que era preciso pregar harmonia entre os Poderes e que a troca de crticas pblicas no ajudaria ningum. Indo direto ao ponto, Temer sugeriu ao presidente da Cmara que questionasse a admisso, por parte da Comisso de Justia, da PEC 33, que pretende garantir que o Congresso tenha a ltima palavra em caso de divergncia com o Supremo. Apresentada pelo deputado Nazareno Fonteles e apoiada pelo relator Joo Campos, do PSDB de Gois, a PEC foi votada por 21 parlamentares, embora a lista de presena registrasse 94 assinaturas. A ideia de Temer era que se deveria tentar anular a admisso da PEC 33, dando um bom argumento jurdico para convencer Gilmar Mendes a recuar em relao  liminar sobre a criao de novos partidos. A estratgia era engenhosa, mas Temer conseguiu, ao menos, ganhar tempo. Todos os interessados prometeram pensar no assunto.

ESTOPIM - Ministro Gilmar Mendes concedeu liminar para paralisar tramitao de projeto

Nas conversas com o presidente do Senado, Michel Temer lembrou que uma crise no beneficiaria ningum e chegou a mencionar a lista de aes referentes ao Legislativo que ainda devem ser votadas pelo STF. O vice-presidente sugeriu que Renan mudasse o tom das declaraes dadas na semana anterior, de que o Congresso iria reagir a qualquer interferncia externa. Para Temer, o mal-estar causado pela paralisao da proposta sobre os novos partidos deveria ser enfrentado com dilogo consistente e argumentos jurdicos. Renan seguiu os conselhos. Na segunda-feira 29, entrou na reunio com Gilmar Mendes desarmado e ressaltou sua disposio para acabar com as tenses. Abriu o caminho para a estratgia de Temer. No sou favorvel nem  liminar paralisando um projeto que est sendo discutido pelo legislativo, nem  proposta que reduz a autonomia do STF. Nenhuma delas colabora com o princpio da independncia entre poderes, ressaltou o vice-presidente.

A atuao de Michel Temer foi apenas mais uma das misses que o vice-presidente vem recebendo da presidenta Dilma desde o incio do ano. Na quinta-feira 2, ele foi chamado ao gabinete presidencial no comeo da manh. Dilma Rousseff lhe pediu que fizesse um resumo do cenrio no Congresso em relao  Medida Provisria 595, que institui o novo marco regulatrio dos Portos, e reforou sua importncia nas articulaes para aprovar a matria. At ento, a atuao estratgica estava nas mos da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e da ministra Ideli Salvatti, de Relaes Institucionais, com resultados pouco satisfatrios. Nos prximos dias, caber a Temer desmontar o cenrio de resistncias  MP e agir para reduzir o desconforto dos parlamentares com o governo.

Tambm est nas mos do vice-presidente a montagem de alianas polticas para 2014. Ele tem se mostrado um aliado com funes variadas e decisivas, numa atuao muito mais importante do que se imaginava no incio do mandato de Dilma Rousseff e do que desejavam os petistas.


2. A VIDRAA COMUNISTA
Acostumado a denunciar prticas de corrupo, o PCdoB passa a conviver com seguidos escndalos envolvendo seus dirigentes
Josie Jeronimo

Na ltima semana, depois de quase um ano de investigaes sigilosas, a Polcia Federal mobilizou mais de 150 agentes e voltou a levar comunistas para a cadeia. Desta vez no com base em uma famigerada lei de segurana nacional, mas por violaes ao cdigo penal. Na segunda-feira 29, o secretrio do Meio Ambiente do Rio Grande Sul, Carlos Fernando Niedersberg, lder do PCdoB no Estado e homem de confiana do governador Tarso Genro (PT), foi preso sob a acusao de ser um dos comandantes de uma mfia especializada na concesso fraudulenta de licenas ambientais para a construo de condomnios de luxo, autorizaes para atuao de empresas no setor de minerao e lavagem de dinheiro. O grupo, segundo os delegados da PF, era composto por funcionrios pblicos e consultores ambientais e atuava no s no governo estadual como em diversas prefeituras. Em pouco tempo, esse homem aparelhou a Secretaria do Meio Ambiente e a transformou em uma central de cobrana de propinas, disse um dos delegados da PF que lideraram a chamada Operao Concutare. Eles no revelaram o total de recursos movimentados pela quadrilha, mas asseguram que cada autorizao irregular custava cerca de R$ 70 mil. Agora, a PF deve iniciar uma nova investigao para saber qual o destino dado ao dinheiro obtido com a corrupo. H suspeitas de que parte dele possa ter irrigado as finanas comunistas.

NA CADEIA - O ex-secretrio do Meio Ambiente do governo Tarso Genro (RS) Carlos Fernando Niedersberg foi preso sob a acusao de chefiar a mfia da liberao de licenas

A priso de Niedersberg no foi um fato isolado para o PCdoB. Tambm na ltima semana, um outro lder do partido foi colocado na ala de mira da Polcia Federal. Trata-se de Daniel Nolasco, scio da RCA Assessoria. A empresa  acusada de cometer fraudes para a obteno de recursos do Programa Minha Casa Minha Vida. Segundo as investigaes, a RCA interferia no sistema de seleo das construtoras escolhidas para participar do programa habitacional do governo e depois recebia parte dos superfaturamentos. Tambm nesse caso, a PF quer saber se o partido foi beneficiado com parte dos recursos obtidos de forma irregular. Tem chamado a ateno dos delegados e tambm de membros dos tribunais de contas a frequncia com que integrantes do PCdoB so descobertos cometendo falcatruas, embora muitas vezes no apresentem sinais exteriores de riqueza. H apenas dois anos, denncias de desvio nos convnios do Ministrio do Esporte com prefeituras e ONGs levaram  queda do ministro Orlando Silva. Investigao da Polcia Federal iniciada aps denncia publicada na ISTO resultou ainda no indiciamento da ex-atleta e vereadora Karina Rodrigues, conhecida como Karina do Basquete, filiada ao partido, acusada de participar do desvio de R$ 27 milhes dos cofres do Ministrio para a ONG Pra Frente Brasil. 

Nessa mar negativa, o PCdoB vive um processo inevitvel de desidratao poltica. Chamuscada pelos recentes escndalos, a legenda comunista perdeu filiados de 2012 para 2013, caindo de 339,4 mil para 328,5 mil. Como um reflexo da crise, a bancada federal do partido na Cmara foi prejudicada. Os comunistas perderam o deputado Edson Pimenta (BA) para o recm-criado PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab.


3. "O PT PRECISA PROVAR QUE  POSSVEL FAZER POLTICA COM SERIEDADE"
Em entrevista a livro sobre a era petista no poder, Lula reconhece os erros do partido e diz que a tarefa do PT  voltar a acreditar em valores banalizados pela disputa eleitoral
Srgio Pardellas

O ex-presidente Lula atravessou as turbulncias polticas dos ltimos oito meses esquivando-se das polmicas. Antes, durante e depois do julgamento de cabeas coroadas do PT no STF, perodo em que tanto ele quanto o seu governo foram questionados tica, moralmente e por prticas de corrupo, Lula limitou-se s articulaes polticas e a proferir discursos para plateias especficas ao lado da presidenta Dilma Rousseff. Na nica vez em que falou com a imprensa, ele preferiu no discorrer sobre temas espinhosos envolvendo o PT e sua gesto. O silncio foi quebrado em entrevista de 20 pginas para o livro Lula e Dilma, 10 anos de governos ps-neoliberais no Brasil, da Editora Boitempo. Ao fazer um balano sobre a era petista no poder, Lula referiu-se ao momento seguinte  denncia do mensalo como o mais delicado do governo e voltou a reconhecer os erros cometidos pelo PT, reeditando postura adotada durante a ecloso do escndalo em 2005. O PT cometeu os mesmos desvios que criticava. O PT precisa voltar a acreditar em valores banalizados por conta da disputa eleitoral.  provar que  possvel fazer poltica com seriedade. Pode fazer o jogo poltico, mas no precisa estabelecer uma relao promscua para fazer poltica, disse Lula. Na avaliao do ex-presidente, o PT deveria reagir e empunhar a bandeira da reforma poltica para aprovar o financiamento pblico de campanha, caso contrrio a poltica vai virar mais pervertida do que j foi em qualquer outro momento. s vezes eu tenho a impresso de que partido poltico  um negcio, emendou.

O PAS SOB LULA E DILMA - Livro com 384 pginas e tiragem de trs mil exemplares traz 21 artigos de especialistas com reflexo sobre o perodo ps- neoliberal a partir da tica progressista

A entrevista foi concedida no dia 14 de fevereiro ao socilogo Emir Sader, organizador da publicao, e ao professor e pesquisador argentino especialista em educao, Pablo Gentili, no Instituto Lula, em So Paulo. Ao passar em revista os anos do PT no poder, Lula tambm falou sobre a ansiedade e as dvidas do incio do mandato e das presses que sofreu at de amigos prximos para no lanar Dilma candidata  sua sucesso. Demonstrou ainda seu ressentimento com a mdia, a quem acusou de se transformar num partido poltico de oposio, e lanou uma aposta: o Brasil ser a quinta economia do mundo em 2016. O livro de 384 pginas e tiragem de trs mil exemplares ser lanado no dia 13 de maio. A publicao rene reflexes de especialistas em 21 reas, entre eles Luiz Pinguelli Rosa, Luiz Gonzaga Belluzzo e Jos Luis Fiori, com o objetivo de aprofundar as discusses sobre os governos Lula e Dilma a partir da tica progressista. Em artigos, os especialistas analisam as tenses em meio s quais se desenvolveu a poltica econmica do governo e discorrem sobre como foram implementadas as polticas sociais, seus sucessos e obstculos at hoje no superados. Seguem trechos da entrevista de Lula:

Qual o balano que o sr. faz dos anos de governo do PT e aliados?
Lula  Esses anos, se no foram os melhores, fazem parte do melhor perodo que este pas viveu em muitos e muitos anos. Se formos analisar as carncias que ainda existem, as necessidades vitais de um povo na maioria das vezes esquecido pelos governantes, vamos perceber que ainda falta muito a fazer para garantir a esse povo a total conquista da cidadania. Mas, se analisarmos o que foi feito, vamos perceber que outros pases no conseguiram, em 30 anos, fazer o que ns conseguimos fazer em dez anos.

Qual foi o grande legado dos dez anos de seu governo?
Lula  (...) As pessoas sabem que este pas tem governo, que este pas tem poltica, que este pas passou a ser tratado at s vezes como referncia para muitas coisas que foram decididas no mundo. Esse  um legado que vai marcar esses dez anos. E eu tenho convico de que, com a continuidade da companheira Dilma no governo, isso vai ser definitivamente consagrado. Parto do pressuposto de que chegaremos a 2016 como a quinta economia do mundo.

Quando comeou o governo, o sr. devia ter uma ideia do que ele seria. O que mudou daquela ideia inicial, o que se realizou e o que no se realizou, e por qu?
Lula  Tnhamos um programa e parecia que ele no estava andando. (...) Eu lembro que o ministro Luiz Furlan, cada vez que tinha audincia, dizia: J estamos no governo h tantos dias, faltam s tantos dias para acabar e ns precisamos definir o que ns queremos que tenha acontecido no final do mandato. Qual  a fotografia que ns queremos. E eu falava: Furlan, a fotografia est sendo tirada (...). Tem que ter pacincia. Eu acho que fui o presidente que mais pronunciou a palavra pacincia. Seno voc fica louco.

Quando o sr. perdeu a pacincia?
Lula  (...) No comeo tinha muita ansiedade. Ser que ns vamos dar conta de fazer isso? Ser que vai ser possvel?, eu me perguntava. Tivemos tropeos,  lgico. O ano de 2005 foi muito complicado. Quando saiu a denncia (do mensalo) foi uma situao muito delicada. Se no tivssemos cuidado, no iramos discutir mais nada do futuro, s aquilo que a imprensa queria que a gente discutisse. Um dia, eu cheguei em casa e disse: Marisa, a partir de hoje, se a gente quiser governar este pas, a gente no vai ver televiso, a gente no vai ver revista, a gente no vai ler jornal. Eu tinha uma equipe e criamos uma sala de situao, da qual participavam Dilma, Ciro (Gomes), Gilberto (Carvalho) e Mrcio (Thomaz Bastos). E era muito engraado: eu chegava ao Palcio e eles estavam todos nervosos. E eu estava tranquilo e falava: Vocs esto vendo? Vocs leem jornal... Vocs esto nervosos por qu?

Por que seu governo provocou tanta reao da elite e da mdia? A reao das oposies aos governos do PT no  desproporcional, tendo em vista os resultados que foram apresentados?
Lula  (...) Eles achavam que ns no passaramos de uma coisa pequenininha, bonita e radical. E ns no nascemos para sermos bonitos, nem radicais. Ns nascemos para ganhar o poder.

Mas vocs nasceram radicais...
Lula  O PT era muito rgido, e foi essa rigidez que lhe permitiu chegar aonde chegou. (...) Eu era um indesejado que chegou l. Sabe aquele cara que  convidado para uma festa, e o anfitrio nem tinha convidado direito? (...) E depois, tentaram usar o episdio do mensalo para acabar com o PT e, obviamente, acabar com o meu governo. Na poca, tinha gente que dizia: O PT morreu, o PT acabou. Passaram-se seis anos e quem acabou foram eles. O DEM nem sei se existe mais. O PSDB est tentando ressuscitar o jovem Fernando Henrique Cardoso porque no criou lideranas.

A negociao  a pr-condio para a solidez do governo?
Lula  (...) Ns aprendemos a construir as alianas necessrias. Se no for assim, a gente no governa (...). O meu medo  que se passe a menosprezar o exerccio da democracia e se comece a aplicar a ditadura de um partido sobre os demais. No gosto muito da palavra hegemonia, sabe. O exerccio da hegemonia na poltica  muito ruim. Mesmo quando voc tem numericamente a maioria,  importante que, humildemente, voc exera a democracia.  isso que consolida as instituies de um pas e foi isso que eu exercitei durante o meu mandato, e que a Dilma est exercitando agora com muita competncia.

Os tabus foram quebrados  direita e  esquerda? Como se sentia com isso?
Lula  (...) Foram oito anos que permitiram que a gente, ao concluir, pudesse dar de presente ao Brasil a eleio da primeira mulher presidenta. Essa foi outra coisa muito difcil de fazer. Eu sei o que aguentei de amigos meus, amigos mesmo, no eram adversrios, dizendo: Lula, mas no d. Ela no tem experincia, ela no  do ramo. Lula, pelo amor de Deus. E eu: Companheiros,  preciso surpreender a nao com uma novidade.
O Brasil mudou nesses dez anos.

E o sr., tambm mudou?
Lula  (...) Mudei porque eu aprendi muito, a vida me ensinou demais, mas continuo com os mesmos ideais. S tem sentido governar se voc conseguir fazer com que as pessoas mais necessitadas consigam evoluir de vida.

E o PT mudou?
Lula  (...) Hoje, ou ns fazemos uma reforma poltica e mudamos a lgica da poltica, ou a poltica vai virar mais pervertida do que j foi em qualquer outro momento.  preciso que as pessoas compreendam que no s a gente deveria ter financiamento pblico de campanha, como deveria ser crime inafianvel ter dinheiro privado nas campanhas; que voc precisa fazer o voto por lista, para que a briga se d internamente no partido. Voc pode fazer um modelo misto  um voto pode ser para a lista, o outro para o candidato. O que no d  para continuar do jeito que est.

Por qu?
Lula  s vezes tenho a impresso de que partido poltico  um negcio, quando, na verdade, deveria ser um item extremamente importante para a sociedade.

O PT no mudou necessariamente para melhor?
Lula  O PT mudou porque aprendeu a convivncia democrtica da diversidade; mas, em muitos momentos, o PT cometeu os mesmos desvios que criticava como coisas totalmente equivocadas nos outros partidos polticos. (...) Voc comea a ser questionado quando vira alternativa de poder. Ento, o PT precisa saber disso. O PT, quanto mais forte ele for, mais srio ele tem que ser. Eu no quero ter nenhum preconceito contra ningum, mas acho que o PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral.  o tipo de legado que a gente tem que deixar para nossos filhos, nossos netos.  provar que  possvel fazer poltica com seriedade. Voc pode fazer o jogo poltico, pode fazer aliana poltica, pode fazer coalizo poltica, mas no precisa estabelecer uma relao promscua para fazer poltica. O PT precisa voltar urgentemente a ter isso como uma tarefa dele.


4. "TEMOS UM PAS  DERIVA EM BUSCA DE UM GESTOR"
Acio Neves eleva o tom das crticas ao governo e diz que Dilma e o PT se perderam num projeto autoritrio de poder e empreguismo
por Mrio Simas Filho e Delmo Moreira; fotos: Adriano Machado

PERIGO - O senador Acio Neves diz que a democracia estsendo ameaada com a concentrao de poderes

Um cu alvoroado e cheio de cores envolve o prdio do Congresso Nacional na tela do pintor mineiro Carlos Bracher que est na parede atrs da mesa de Acio Neves. Em seu gabinete no Anexo l do prdio do Senado Federal, Acio encontra tempo para apreciar a pintura e relembrar encontros alegres com Bracher em Ouro Preto. Esses momentos amenos, contudo, podem se tornar cada mais raros, levando-se em conta a agenda do senador. Acio Neves vai assumir a presidncia do PSDB e comea a botar na rua o bloco da campanha para 2014. Ele no se declara candidato enquanto no receber a indicao oficial do partido, o que s deve acontecer na virada do ano. Mas na entrevista que concedeu  ISTO, durante pouco mais de duas horas, o senador traou o perfil do novo PSDB que pretende construir e discutiu as ideias com as quais espera conquistar o eleitor brasileiro.

ISTO  O que o sr. vai mudar no PSDB?
Acio Neves  O PSDB deve renovar seu discurso e apresentar propostas novas para o Pas. Precisamos assumir o papel de principal alternativa ao que est a, com uma proposta clara que nos diferencie do PT. O Brasil ter uma grande oportunidade de comparar propostas diferentes. Quando assumir a presidncia do PSDB, meu papel ser o de discutir uma agenda para os prximos 20 anos. E de mostrar que os modernos, os eficientes, os que prezam a democracia somos ns. O atraso, a ineficincia e o vis autoritrio so a marca de nossos adversrios.

ISTO  Como isso vai ser feito?
Acio  Como presidente do PSDB, quero correr o Brasil para, at o final do ano, ter essa proposta nova muito bem clara. Que ela mostre que apostamos na gesto eficiente e no no gigantismo da mquina pblica. Que ns apostamos em uma poltica externa pragmtica em favor dos interesses do Brasil e no no alinhamento ideolgico atrasado que tanto prejuzo traz ao Pas. Que apostamos na refundao da Federao, com distribuio mais justa de recursos entre os Municpios e os Estados.

ISTO  Essa ser a base de seu programa como candidato  Presidncia da Repblica?
Acio  Se o partido definir que serei o candidato, posso dizer que estou preparado para iniciar um tempo novo no Brasil. Vamos primeiro construir no PSDB o arcabouo para o candidato trabalhar. Vamos mostrar que podemos fazer muito melhor para o Brasil.

ISTO  A presidenta Dilma Rousseff tem alto ndice de aprovao. Isso no mostra que o Pas est satisfeito com o governo?
Acio  Ainda vivemos uma sensao de bem-estar. Temos um nvel de desemprego baixo, empregabilidade alta. Mas h uma bomba-relgio para explodir a qualquer momento. E o nosso papel  mostrar isso.

ISTO  O que est errado?
Acio  Acho que houve uma viso equivocada. O governo desenhou o crescimento da economia pela demanda, atravs do crdito, mas isso j est no limite. O calcanhar de aquiles estava na oferta. Temos uma pssima infraestrutura para escoar a produo, o custo Brasil  crescente e a produtividade, baixssima. Tudo isso est levando a um quadro de incertezas, num momento em que precisaria haver o investimento privado para compensar a diminuio do consumo.

ISTO  Esses temas tero repercusso eleitoral?
Acio  O resultado eleitoral a populao  que ir determinar. Ao contrrio da presidenta, no me movo pela lgica eleitoral.

ISTO  A presidenta provavelmente diz o mesmo...
Acio  Infelizmente, a agenda das eleies est levando a presidenta a
buscar permanentemente medidas populistas, elevando o risco de entrarmos no ciclo vicioso da inflao e do crescimento econmico comprometido.

"Quem administra o Brasil no  mais a
presidenta Dilma,  a lgica da reeleio"

ISTO  O sr. tambm no est pensando em eleio o tempo todo?
Acio  Com muita responsabilidade. No podemos deixar que a propaganda ufanista continue a contagiar as pessoas. O avano do Brasil  uma construo tijolo a tijolo, feita por algumas geraes de homens pblicos. Desde a estabilidade da moeda, com Itamar Franco, a implantao e consolidao do real, com Fernando Henrique e Lula. Mas agora no h uma agenda nova.

ISTO  O sr. v diferenas entre os governos Lula e Dilma?
Acio  H um sentimento crescente de cansao com esse modelo que est no poder. Isso  perceptvel em todo o Pas. Acho que o PT perdeu a capacidade de apresentar um projeto de governo e se contentou em ter um projeto de poder. O que move o governo Dilma  exclusivamente a agenda do poder. Quem administra o Brasil no  mais a presidenta Dilma,  a lgica da reeleio. O PT trocou a agenda das reformas para as quais foi eleito.

ISTO  Qual  a nova agenda?
Acio  A agenda do autoritarismo.  claro o vis autoritrio nas inmeras medidas patrocinadas pelo PT. Uma cerceia o poder de investigao do Ministrio Pblico, outra cria uma instncia revisora das decises do STF. E tudo isso casado ainda com uma ao truculenta e casustica que inibe a criao de outras foras partidrias de oposio. Essas aes mostram o governo com enorme receio do enfrentamento poltico. H tambm uma concentrao excessiva de receitas nas mos da Unio, fragilizando Estados e Municpios. Isso leva  ineficincia e a desvios permanentes.

ISTO  O sr. diz que as reformas no andaram, mas isso  s culpa do governo?
Acio  No se fala mais em reforma poltica, que era o carro-chefe do segundo mandato do presidente Lula e da campanha da presidenta Dilma. O tema  escanteado sempre que a presidenta comea a enfrentar contenciosos entre os grupos aliados. Com a reforma tributria  a mesma coisa. Poderamos ter uma poltica de desonerao horizontal ampla, para todos os setores da economia, e no essa de hoje s para os escolhidos.

Meu esforo  demonstrar que o novo  o PSDB e o velho  o PT, pelos acordos
que vem fazendo com os setores mais atrasados da vida nacional

ISTO  Esses no so os problemas de sempre na relao com as bases aliadas?
Acio  A presidenta vive uma armadilha que ela prpria montou: um governo que  de cooptao, no de coalizo. O governo se pauta permanentemente pela busca de novos aliados, o que o leva  paralisia. As grandes questes que interessam ao Pas no andam no Congresso porque no h unidade na base. Existe apenas disputa por espao no governo.

ISTO  No  normal que se faam alianas para governar?
Acio  As alianas deste governo levaram  eleio do Marco Feliciano na Comisso de Direitos Humanos, colocaram Renan Calheiros na presidncia do Senado e Henrique Alves na presidncia da Cmara. Cada vez mais, o PT cria cargos pblicos para atender a sua turma. O que ocorre agora  assustador. Quando Fernando Henrique deixou o governo havia 1.200 cargos em comisso no mbito da Presidncia da Repblica. Hoje so quatro mil. Essa  a lgica do PT: o empreguismo, o aparelhamento da mquina. A lgica da democracia  ter os partidos polticos a servio do Estado. O PT inverteu isso. Colocou o Estado a servio de um partido poltico. Em todos os nveis, a ocupao do governo pelos partidos aliados  assombrosa.

ISTO  Quando o PSDB estava no poder no ocorria o mesmo?
Acio   muito diferente. No estou dizendo que no tivemos problemas l atrs. Esse compartilhamento sempre houve, mas nunca nos nveis de hoje. Criou-se a imagem de que a presidenta Dilma fazia uma grande faxina sem levar em conta que foi ela prpria quem colocou aquelas pessoas no cargo para atender s imposies dos partidos de seu entorno. Temos um pas  deriva em busca de um gestor ou de uma gestora eficiente.

ISTO  Mas a presidenta ganhou a eleio com apelo de gestora competente.
Acio  As principais obras de infraestrutura no Pas esto paralisadas. O Tribunal de Contas mostra que 48% das obras do PAC tm algum tipo de desvio ou de superfaturamento. A transposio do rio So Francisco est com apenas 40% das obras prontas e o oramento, que era de R$ 4,5 bilhes, chega a mais de R$ 8 bilhes. A Transnordestina tinha oramento de R$ 4 bilhes, j est em R$ 7 bilhes e nunca passou um trem por ela. Na Norte-Sul, alm de superfaturamento, estamos descobrindo agora que o material utilizado era imprprio. A refinaria Abreu Lima, em Pernambuco, foi orada em R$ 4 bilhes e vai ser um campeo nacional: ser a refinaria mais cara do mundo. No h planejamento, as obras esto paradas e a economia est parada.

ISTO  A oposio no est superdimensionando a volta da inflao?
Acio  A inflao de alimentos j est em 14% nos ltimos 12 meses. E quem ganha at 2,5 salrios mnimos  90% dos empregos gerados na era petista so nessa faixa  gasta em mdia 30% da renda com alimentao. Isso  muito grave.

ISTO  O sr. no acredita que o Banco Central manter a meta inflacionria?
Acio  A meta j  virtual, no existe mais. No a atingimos nos dois
primeiros anos do governo Dilma e no vamos atingi-la novamente. Parece que eles focam o teto da meta como se fosse o centro. Isso gera uma enorme insegurana no mercado e dvidas sobre o real compromisso deste governo com o controle da inflao.

ISTO  Qual  a marca do governo Dilma, em sua opinio?
Acio  O governo Dilma no tem marca.  sintomtico que a presidenta se apresse para comemorar os dez anos de governo do PT.  uma forma de esconder os dois anos do governo Dilma: ela acopla os dois anos dela aos oito de Lula, quando realmente vivemos um perodo de maior expanso dos programas sociais. Pegar uma carona com o presidente Lula  mais uma demonstrao de fragilidade. O que caracteriza o governo Dilma  a insegurana jurdica que afugenta empresrios. O mundo est se recuperando, mas o Brasil est ficando de fora. Onde o investidor vai colocar seus recursos? No Brasil da insegurana, das intervenes, do vis autoritrio latente? O PT no convive bem com a democracia.

ISTO  Onde o sr. identifica esses focos de insegurana?
Acio  A realidade  que o sentimento l fora  de muita cautela em relao ao Brasil. As agncias reguladoras so um exemplo. Elas foram aparelhadas por gente sem a menor identificao com a rea. Agora vemos a permissividade das pessoas dessas agncias montando negcios com a bno dos poderosos. Para o Brasil ser bom o PT tirar frias e para o PT ser bom ir para a oposio. Assim, quem sabe eles se reencontrem com os valores que levaram  sua criao e ao seu crescimento. O PT hoje  um partido que s pensa na manuteno do poder, mesmo que para isso coloque em risco a democracia e a liberdade. A agenda do PT no faz bem nem ao Brasil nem  democracia.

ISTO  As questes ticas voltaro ao centro da disputa presidencial?
Acio   um ponto que estar na campanha. O ministro Ayres Britto me dizia outro dia que a questo da sustentabilidade precisa ir alm do tema ambiental. Precisamos de sustentabilidade moral. Acho que a deciso do STF permitiu ao Brasil ter pela primeira vez um sentimento de que a impunidade no  um valor absoluto. Isso no podemos deixar que se perca. Uma nao, para ser desenvolvida, tem de se render aos valores ticos. E esse ser um papel importante do PSDB nessa campanha. Vamos mostrar que a democracia no pode ser ameaada com a concentrao de poderes.

ISTO  O sr. no teme que esse discurso possa parecer eleitoreiro, j que h poucos anos o sr. brigava no partido em busca de entendimentos com o PT?
Acio  Confesso que busquei isso e, em determinado momento, enxerguei a possibilidade de uma ao conjunta para avanarmos em termos sociais. Cheguei a construir em Belo Horizonte uma aliana com o atual ministro Fernando Pimentel. Mas a oposio no PT foi raivosa, inclusive punindo o prprio Pimentel. O PT preferiu outros aliados e cada vez mais as nossas diferenas se acentuaram.

ISTO  Nas ltimas eleies, o PSDB levou para a campanha temas como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Esses assuntos estaro presentes de novo em 2014?
Acio  Espero que no. Essas no so questes de responsabilidade de um presidente da Repblica.

"O PT hoje  um partido que s pensa na manuteno do poder. 
A agenda do PT no faz bem nem ao Brasil nem  democracia"

ISTO  Mas, pessoalmente, o sr.  a favor ou contra essas questes?
Acio  Sou favorvel ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Isso j est incorporado ao mundo moderno. Com relao ao aborto, defendo a legislao atual. Mas o meu esforo  demonstrar que o novo  o PSDB e o velho  o PT, pelos acordos que vem fazendo com os setores mais atrasados da vida nacional.

ISTO  O sr. no acha que o Pas melhorou? 
Acio  Reconheo que o Brasil de hoje  melhor do que era h 20 anos. At melhor do que dez anos atrs. Mas isso  um processo. Ao contrrio do PT, que gosta de fazer parecer que o Brasil foi descoberto em 2003, temos clareza de que isso  produto de um processo. O maior programa de distribuio de renda que houve no Pas foi o Plano Real, que deixou de punir os brasileiros com o imposto inflacionrio e os trouxe para o consumo. De l para c, avanos ocorreram, no podemos negar.

ISTO  Que avanos?
Acio  O PT fez duas coisas muito importantes. A primeira foi esquecer o seu discurso e manter por algum tempo  hoje no mais mantm  os pilares macroeconmicos herdados do governo Fernando Henrique: meta de inflao, cmbio flutuante e supervit nas contas. Esses pilares foram fundamentais para que o Brasil tivesse algum sucesso no campo econmico. Alm disso, o presidente Lula teve a virtude de unificar e amplificar os programas de transferncia de renda. Isso foi importante, mas  insuficiente. Hoje o PT s tem a agenda do poder.

ISTO  Como caminham essas conversas entre a oposio?
Acio  No quadro poltico brasileiro,  muito bom ter uma candidatura como a da Marina. Vai trazer temas importantes para o debate. A candidatura do Eduardo Campos, que espero que se confirme, tambm vai trazer uma discusso mais profunda. Vamos falar de desenvolvimento regional, de agenda da gesto pblica, da federao. O governo  que parece atemorizado, querendo ganhar por WO.


5. A OFENSIVA ACIO
Para levar os tucanos de volta ao poder, o senador mineiro prepara um novo projeto para o PSDB. Saiba quais so suas principais propostas, as ideias para a economia e os parceiros preferenciais
Mrio Simas Filho e Delmo Moreira

Logo depois das eleies municipais de 2012, o senador Acio Neves (PSDB-MG) teve uma conversa decisiva com o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin. Foi direto ao assunto: Geraldo, voc quer ser novamente candidato a presidente da Repblica?, indagou o mineiro. Se quiser, ter todo o meu apoio. Alckmin respondeu que no e disse que trabalharia para o PSDB chegar unido em 2014. Era tudo o que Acio queria ouvir. Sua pergunta tinha algo de retrica, pois ele j sabia que no estava nos planos do governador disputar a sucesso de Dilma Rousseff e que chegara a sua hora na fila tucana. O que Acio buscava mesmo era a certeza de que movimentos ressentidos do recm-derrotado Jos Serra no abalariam a unidade partidria em So Paulo, Estado que concentra a maior parte do eleitorado brasileiro. Com a resposta de Alckmin e o aval do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Acio Neves comeou a colocar em prtica uma srie de aes que se tornaro mais visveis nas prximas semanas, quando ele assumir a presidncia nacional do partido. Nos ltimos meses, o senador mineiro se debruou sobre diversas pesquisas, conversou com os empresrios que costumam liderar as listas de doadores nas campanhas eleitorais, reuniu prefeitos e governadores de todas as regies do Pas e vem mantendo encontros frequentes com economistas e analistas polticos. No comando do tucanato, Acio pretende liderar uma oposio bem mais aguerrida. Ir correr o Pas e promete finalizar at dezembro o que vem chamando de um novo projeto para o Brasil.

Se depender do roteiro traado pelo senador, a eleio presidencial de 2014 poder ser bem diferente das duas ltimas. Tanto em 2006 quanto em 2010, o PSDB no conseguiu se colocar como alternativa real na cabea do eleitor. No trouxe ideias capazes de animar o debate poltico e no conseguiu se descolar da pauta imposta pela gesto petista. Acio trabalha agora para formular outra agenda e comea a esboar o programa para a campanha. Do ponto de vista da economia, estaro de volta as bandeiras de corte liberal dos tucanos, agora apimentadas por crticas a polticas executadas pelo governo Dilma. Metas de inflao desleixadas, isenes fiscais seletivas, ingerncias na economia, crescimento irrisrio e paralisia nas obras de infraestrutura sero os alvos prediletos dos tucanos. A contundncia das propostas, contudo, ainda parece depender demasiado de um eventual fracasso da atual poltica econmica, obviamente descartado pelo governo.  como se, para dar certo, tudo tivesse de dar errado. O ndice inflacionrio  o cavalo de batalha do momento. Na quarta-feira 1, no palanque da Fora Sindical, em So Paulo, Acio jogou no colo do governo a responsabilidade pela alta dos preos: A lenincia do governo coloca em risco uma das maiores conquistas das ltimas dcadas: o controle da inflao. No vamos permitir que esse fantasma volte a nos assombrar, disse Acio.

O nascente programa tucano passa a ganhar contornos mais corrosivos quando Acio agrega  critica da poltica econmica uma discusso sobre tica e democracia. Desvios mensaleiros e denncias de corrupo sero temas da campanha levados junto com a ideia de que o governo Dilma e o PT se revelam essencialmente autoritrios. Os tucanos j comeam a elevar o tom na defesa da independncia de poderes e no que entendem como graves ameaas s liberdades democrticas. H uma tendncia de explorar a suposta identidade chavista-bolivariana que o PSDB gostaria de ver grudada ao governo petista. Esse conjunto de liberalismo econmico e combate  corrupo e ao autoritarismo tende a aproximar o discurso tucano em 2014 daquele adotado pelas oposies na Venezuela e na Argentina, por exemplo.

ALVO - Acio pretende associar a imagem de Dilma Rousseff  falta de dilogo e m gesto

O PSDB tambm ir se empenhar em conquistar aliados e ampliar a tradicional aliana com o esquartejado DEM. O quadro idealizado por Acio para o ano que vem troca o tradicional embate PT versus PSDB por um duelo mais amplo de governo versus oposio. Acio imagina o novo PSDB capaz de dialogar com os eleitores de todas as classes sociais, mas primeiramente com a classe mdia das grandes cidades. O PT no trouxe uma agenda para o Pas, trabalhou esses ltimos anos com as ideias colocadas no governo de Fernando Henrique, mas precisamos avanar, tem dito o senador a seus interlocutores. Das inmeras conversas mantidas com empresrios e banqueiros, muitas delas feitas com a presena do ex-presidente FHC, o senador mineiro concluiu que o governo da presidenta Dilma Rousseff no transmite a segurana necessria para que o Pas receba investimentos privados na quantidade necessria para alavancar um crescimento consistente. Acio ouviu queixas de empresrios sobre a interferncia do Estado na economia e mudanas de regras de jogo, uma ao que no identificariam no governo do ex-presidente Lula.

Dos encontros com polticos, Acio chega a outras concluses. A principal delas  a de que h um crescente descontentamento de prefeitos e governadores, inclusive de partidos ligados  base de apoio do governo, com o que tem chamado de concentrao de poder na esfera federal. Muitos reclamam que Braslia distribui pacotes de bondades  custa de diminuio de recursos para os Estados e municpios, mas pouco abre mo das receitas federais. Nesse sentido, o senador pretende levar aos tucanos a ideia da defesa do federalismo como uma forma de repaginar a velha bandeira municipalista, at hoje apontada como uma das principais razes para a densidade eleitoral do PMDB em todo o Pas. A receita de Acio para o PSDB  fazer com que o partido assuma a linha de frente de uma poltica de valorizao dos Estados e municpios, assegurando a governadores e prefeitos a retomada da capacidade de investimentos locais ou regionais. Tucanos que tm participado desses encontros de Acio com governadores e prefeitos, relatam que muitos deles, principalmente os de partidos ligados  base de apoio do governo, se sentem tratados como dependentes de Braslia e no como aliados. So lideranas que eventualmente poderiam aderir a uma campanha oposicionista se enxergassem nela a soluo para seus problemas locais.

PALANQUE - No comcio da Fora Sindical, ataques ao governo pela suposta volta da inflao

Nas pesquisas pr-eleitorais que tem em mos, o senador identifica um esgotamento das gestes do PT, principalmente entre as camadas de renda mais alta. Na ltima pesquisa, feita com uma amostragem de seis mil eleitores nas classes A e B, sua provvel candidatura tem ndices semelhantes ao da presidenta Dilma e superiores aos obtidos por Marina Silva  que carrega consigo um enorme recall da eleio de 2010  e pelo governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB. As pesquisas qualitativas tambm apontaram a Acio uma preocupao da classe mdia com o que chama de vis autoritrio do PT.  um tema que une os principais pr-candidatos  Presidncia e agrada a setores que passaram a olhar o PSDB com reservas depois que Serra levou para os palanques uma pauta conservadora em torno de questes como o aborto e a unio homoafetiva. O tucano tambm aposta na consolidao da candidatura de Eduardo Campos e batalha para que o Movimento Democrtico, do deputado Roberto Freire, a Rede, de Marina Silva, e o Solidariedade, de Paulo Pereira da Silva, da Fora Sindical, consigam efetivamente sair do papel. A aposta  de que at as vsperas dos registros das candidaturas, tucanos, socialistas e marineiros tenham discursos convergentes. A expectativa tambm  de que Serra permanea aconchegado no ninho tucano. Acio acredita ainda que, em 2014, poder trazer para o bloco oposicionista o PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab.

